Copa do Mundo 1958


Nasce uma lenda
“Pelé-Didi-Vavá-Garrincha… Pelé-Didi-Vavá-Garrincha”… o grito, repetido e aclamado maciçamente nos estádios, soava como uma contagiante melodia popular ao ritmo do samba, embora seria mais exato falar de uma sinfonia. Na dinâmica do jogo parecia um verdadeiro concerto futebolístico que deleitou os espectadores durante duas Copas e cujo o instrumentista principal foi um jovem de apenas 17 anos que mais tarde passaria para a história como “O Rei”.
Os europeus reconheciam as virtudes do futebol brasileiro: técnica individual, improvisação, inteligência, vivacidade, imaginação, elegância e até malícia. Em suma, “jogo bonito”. Os jogadores brasileiros eram considerados, mais que tudo, artistas da bola.
Seus defeitos, no entanto, originavam-se precisamente deste estilo mais perto da inspiração do que da disciplina. Tinham um temperamento volátil, eram imaturos e não estavam psicologicamente preparados para os rigores da alta competitividade. Os próprios brasileiros estavam convencidos de que, depois dos fracassos de 1950 e 1954, jamais conseguiriam um título mundial.
Depois de uma decepcionante estréia que fez perigar a permanencia do Brasil na Copa da Suécia, os jogadores brasileiros, liderados por Nilton Santos, impuseram a formação do time ao técnico Feola com uma categórica ameaça: “Se eles jogarem, ganharemos a Copa do Mundo, se não jogarem, nós não ganharemos”. Na lista dos jogadores solicitados figurava um jovem negro que, por sua inexperiência e cor de pele, não era considerado pelo treinador e que ganhava apenas 15 dólares mensais, o salário mais baixo do plantel.
Seu nome: Edson Arantes do Nascimento, que era chamado por sua mãe de “Pelé”.
A partir das mudanças impostas, a frase Pelé-Didi-Vavá-Garrincha passou a ser uma espécie de mantra obrigatório para os relatores esportivos. Na semifinal, o quase desconhecido Pelé mostrou sua capacidade futebolística, quando os brasileiros viraram o jogo, com três gols dele, e golearam a poderosa França de Fontaine – o maior artilheiro em um campeonato mundial.
Novamente o Brasil disputava uma final, agora contra o time local da Suécia, e uma vez mais chegava como favorito. Embora os especialistas não desconhecessem a superioridade técnica dos brasileiros, os suecos poderiam repetir a façanha dos uruguaios em 1950 e dos alemães em 1954, fazendo com que o melhor time perdesse a batalha final. As possibilidades de triunfo dos suecos, segundo os analistas da época, se baseavam em três elementos: a camisa, o clima e em marcar o primeiro gol. Se o Brasil mudasse de camisa, seus jogadores poderiam ficar nervosos. O tempo chuvoso e um campo pesado também eram uma maior desvantagem para os brasileiros, por seu jogo mais técnico.
Com relação ao primeiro gol, no caso de ser sueco, obrigaria o Brasil a abandonar seu esquema tradicional de 4-2-4 para lançar-se ao ataque com mais ímpeto que prudência, permitindo aos jogadores locais explorar sua melhor arma: o contra-ataque.
Como um mau presságio, todas essas circunstâncias aconteceram e a triste sombra do “Maracanaço” caiu sobre os brasileiros. Uma vez mais, como há oito anos atrás, o carnaval ameaçava transformar-se em drama. Mas Pelé havia chegado para mudar a história e transformá-la em um conto de fadas cheio de gols, piruetas e celebração. Com dois maravilhosos gols, transformou-se no solista de uma orquestra perfeitamente afinada, que ao ritmo de Pelé-Didi-Vavá-Garrincha intimidou os jogadores locais e coroou o novo “rei do futebol”: Pelé.


A Copa do Mundo de 1958 foi a sexta Copa do Mundo disputada, e contou com a participação de 16 países. 51 países participaram das eliminatórias. Um torneio marcante em muitos aspectos, a Copa da Suécia viu entre outras coisas a estréia de Pelé, treze gols marcados pelo artilheiro francês Just Fontaine, e a primeira conquista do Brasil, o que representa a primeira e única vez que um time sul-americano levantou a taça em solo europeu. Os grandes favoritos ao título eram ingleses, soviéticos, franceses e alemães. O Brasil, depois do vice em 1950 e da fraca campanha em 1954 era visto com desconfianças. A Hungria, de protagonista em 54 chegava como mera coadjuvante em 58, sem seus principais craques pouco podia fazer na copa.
Esta Copa do Mundo viu a inscrição e classificação da União Soviética pela primeira vez, e a classificação de todas as nações constituintes do Reino Unido: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, com os norte-irlandeses ainda conseguindo a façanha de eliminar a Itália, bicampeã em 1934 e 1938, pela primeira (e única) vez na história da competição.
Além das Eliminatórias européias, o País de Gales, que terminou em segundo atrás da Tchecoslováquia, jogou uma repescagem contra Israel depois que os israelenses venceram seu grupo sem precisar jogar devido às desistências de Turquia, Indonésia e Sudão. A FIFA determinou que nenhuma equipe se classificaria para a Copa sem jogar pelo menos uma partida pois muitos times se classificaram em Copas anteriores só por causa da desistência de outros. Gales venceu a repescagem e se classificou.
Na América do Sul, a surpresa foi a eliminação do Uruguai, bicampeão em 1930 e 1950 e semifinalista em 1954, que foi eliminado pelo Paraguai, após sofrer uma goleada em Assunção por 5-0, com três gols de Amarilla.
Em 8 de fevereiro, Lennart Hyland e Sven Jerring apresentaram os resultados do sorteio onde as equipes classificadas foram divididas em quatro grupos.
O formato da competição mudou comparado ao da Copa anterior: 16 times ainda competiam em quatro grupos de quatro equipes, mas desta vez todos enfrentavam todos pelo menos uma vez, sem tempo extra em caso de empate. No lugar disso, se o segundo e terceiro colocados empatassem em número de pontos, haveria um jogo desempate do qual o vencedor seguiria adiante. Se o desempate ficasse empatado, então a regra de goal average dos jogos do grupo seria utilizada para determinar o classificado. Se ainda assim persistisse a igualdade, haveria sorteio. Se os dois primeiros colocados da chave terminassem empatados, goal average seria utilizado para definir o primeiro e o segundo. Este regulamento não havia sido concluído até o início da competição e continuou sendo debatido no meio do certame.
s especialistas da época arriscavam não dar palpites em relação ao favorito.
Tomando por base o torneio anterior disputado na Suíça em 1954, a campeã Alemanha Ocidental era favorita, mas perdera 7 jogos amistosos em 10 disputados. Embora tivese renovado a equipe com os novatos Uwe Seeler e Karl-Heinz Schnellinger, a equipe base era praticamente a mesma que havia derrotado a Hungria na final de Berna, contando com seu capitão Fritz Walter, na época com 38 anos, e em fim de carreira.
A Hungria vinha forte desde que fora derrotada na final de 1954, mas a Revolução Húngara, ocorrida em 1956, onde os tanques soviéticos dominaram Budapeste, fizeram com que seus principais jogadores (Ferenc Puskas, Sándor Kocsis e Zoltán Czibor) fugissem do país, e se refugiassem em clubes da Espanha. Com isso, a Hungria iria para a Suécia com uma equipe que perdera seu brilho, e contava com uma mistura de remanescentes de 1954, como Gyula Grosics, László Budai e József Bozsik e novatos não-testados em competições internacionais, como Máté Fenyvesi, Károly Sándor, Ferenc Szojka e Lajos Tichy.
A União Soviética era uma das grandes favoritas, visto que, em 1956 ganhara a medalha de ouro no Torneio de Futebol, nos Jogos Olímpicos de Melbourne, e contara com toda a base que ganhara àquele torneio.
Por sediar o torneio, a Suécia era grande favorita, e contava com atletas experientes, que jogavam na Série A italiana, como Nils Liedholm, Agne Simonsson, Gunnar Gren e Kurt Hamrin.
A Inglaterra tinha um bom time, mas veio enfraquecido, pois, seis meses antes do torneio, perdera Duncan Edwards, Tommy Taylor, e Roger Byrne, num desastre de avião em Munique. Os jogadores eram do Manhcester United, equipe tricampeã inglesa, e que era a base da seleção nacional. Com isso, tiveram que refazer os planos para o Mundial, convocando jogadores que jogaram em 1950, como o veterano Tom Finney.
Dos latinos, o Brasil era o grande favorito, e tinha uma mescla de jogadores experientes e novatos na dose certa, mas havia ressalvas quanto ao controle emocional dos jogadores, quando expostos à pressão.
Depois do sucesso de transmitir a Copa anterior de 1954, esse torneio também foi televisionado. O lançamento da segunda versão do satélite Sputnik pelos soviéticos, em janeiro de 1958, possibilitou a transmissão televisiva do torneio para os países europeus. No total, 11 países europeus aderiram ao consórcio liderado pela Sveriges Radio, estatal de Rádio e TV, que detinha os direitos de transmissão.
Para os países não-europeus, ficava a opção de adquirir os kinescópios dos jogos, filmados em 16 mm (ainda não havia surgido o video-tape, e os kinescópios eram o melhor meio de gravar conteúdo filmado na época). O consórcio providenciava aos interessados os kinescópios de cada partida a preço de custo, acrescido de apenas 1% de margem de lucro, para custear o trabalho das equipes de filmagem para registro dos jogos. No Brasil, a extinta TV Tupi adquiriu os kinescópios, que, anos mais tarde, puderam ser transformados em video-tape.
Para a cobertura do Mundial, 2000 jornalistas se credenciaram para cobrir o evento. Dos credenciados, 200 eram jornalistas alemães.
No Grupo 1 a Alemanha Ocidental ficou em primeiro lugar. A Irlanda do Norte surpreendeu o mundo ao ficar com a segunda vaga após derrotar a Tchecoslováquia no jogo desempate. A Tchecoslováquia aplicou na Argentina uma super goleada por 6 a 1 e os sul-americanos foram recebidos em casa com uma chuva de pedras e moedas.
No Grupo 2 o destaque foi a França. Com craques como Fontaine e Kopa o time goleou o Paraguai por 7 a 3 e venceu a Escócia por 2 a 1. Com um saldo tão bom a derrota para a Iugoslávia na segunda rodada não fez diferença. Os iugoslavos ficaram com a segunda vaga.
No Grupo 3 a Suécia, dona da casa, passeou. Gales ficou em segundo. Assim esta foi a única copa até hoje em que as quatro seleções britânicas participaram juntas (Escócia, Irlanda do Norte, País de Gales e Inglaterra), só a Inglaterra e a Escócia não se classificaram para as Quartas.
No Grupo 4 Brasil, Inglaterra, Áustria e URSS decidiriam 2 vagas. O Brasil estreou bem com 3 a 0 na Áustria. Após o empate em 0 a 0 contra o English Team, os jogadores se reuniram com o treinador, Vicente Feola, e pediram a entrada de Mané Garrincha e Pelé no time. O pedido deu resultado: Brasil 2-0 URSS, com grande atuação de Garrincha contra seu marcador. A URSS ficou com a outra vaga ao vencer a Inglaterra por 1 a 0 no jogo desempate.
Nas Quartas o Brasil enfrentou a forte defesa do País de Gales. Nesta partida Pelé brilhou. Ele aplicou um drible curtíssimo em seu marcador (“chapéu”) e girou de primeira. A França encarou a Irlanda do Norte em partida de grande atuação de Just Fontaine, que marcou dois dos quatro gols da vitória dos Bleus. Helmut Rahn marcou o único gol da partida entre alemães e iugoslavos, colocando os germânicos nas semis. Os donos da casa bateram os soviéticos por 2 tentos a 0.
Nas semifinais a Suécia continuou sua escalada ao derrotar a Alemanha Ocidental por 3 a 1 num jogo conturbado, onde os megafones do estádio engrossavam o coro da torcida. Provocações aprendidas pelos suecos no futebol italiano fizeram com que o alemão Erich Juskowiak fizesse uma falta violenta e fosse expulso. O capitão alemão Fritz Walter sofreu uma contusão que encerraria sua carreira após uma falta, e como substituições só puderam ser feitas após a Copa de 1970, o time alemão ficou com dois jogadores a menos.
Na outra partida, um grande duelo. A melhor defesa (Brasil) contra o melhor ataque (França). O Brasil faz uma exibição brilhante, com Pelé, Garrincha e Didi em um grande dia. Ainda que os franceses tivessem saído na frente, grandes atuações do time brasileiro se refletiram no resultado: 5 a 2 Brasil. A França arrasa a Alemanha pelo terceiro lugar em um 6 a 3 histórico com quatro gols de Just Fontaine. Fontaine terminou a Copa com 13 gols e é até hoje o artilheiro com maior número de gols dentro de uma única Copa do Mundo.
A final seria disputada no Estádio Råsunda entre Brasil e Suécia em frente a um público de 50.000. O Brasil perde o sorteio e joga de azul, ambos os times tinham o uniforme nº 1 em amarelo. “Nós vamos vencer, vamos jogar com a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida” disse o dirigente da delegação brasileira Paulo Machado de Carvalho. Nem o gol sueco que inaugurou o placar abalou a equipe. Didi, o príncipe etíope, certamente uma das peças mais importantes do time brasileiro, pegou a bola e foi calmamente andando com ela debaixo dos braços, lembrando a todos que o Botafogo tinha dado uma goleada na Suécia e não ia ser a seleção brasileira que ia perder deles. Resultado: uma partida excepcional que, mesmo com a derrota por 5 a 2 em casa, foi aplaudida de pé pela torcida sueca, ao saudar como campeões do mundo Pelé, Vavá, Zito, Mazzolla, Garrincha, Didi, Gilmar, Zagallo, entre outros. Assim o Brasil sagrava-se pela primeira vez campeão mundial de futebol.

Convocados para a Copa

1 – Castilho
2 – Bellini
3 – Gilmar
4 – Djalma Santos
5 – Dino
6 – Didi
7 – Zagallo
8 – Moacir
9 – Zózimo
10 – Pelé
11 – Garrincha
12 – Nilton Santos
13 – Mauro
14 – De Sordi
15 – Orlando
16 – Oreco
17 – Joel
18 – Mazzola
19 – Zito
20 – Vavá
21 – Dida
22 – Pepe

Técnico: Vicente Feola

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