Copa do Mundo 1970


Brasil Tricampeão
Segundo a história não oficial, depois que vários treinadores haviam recusado o cargo, e diante da urgência do trabalho que havia pela frente, Mario Jorge Lobo Zagallo, ex-atacante da seleção campeã do mundo na Suécia e no Chile, aceitou de imediato a oferta de dirigir o Brasil, em uma conversa que aconteceu em um veículo estacionado em frente a uma praia do Rio de Janeiro.
Esse episódio seria lembrado como uma simples anedota, se não fosse pelo fato de o técnico anterior, João Saldanha, não ter incluído no seu time o jogador destinado a converter-se na maior figura da Copa do Mundo do México 70: Pelé. Depois de ter sido anulado por causa de agressões no mundial da Inglaterra 66, Pelé foi considerado velho, com excesso de peso e até míope. Felizmente para o futebol, Saldanha perdeu crédito porque sua filiação comunista não era bm vista pelos duros militares da ditadura governante.
Paradoxos do destino. O certo é que Pelé uniu-se a um grupo privilegiado de estrelas do porte de Rivelino, Jairzinho, Gerson e Tostão, entre outros. Um seleto grupo que ofereceu um dos melhores espetáculos lembrados em uma Copa do Mundo, reforçado pela importância que Zagallo deu aos aspectos táticos e à preparação física.
Desde o primeiro jogo, contra a Tchecoslováquia, a seleção brasileira demonstrou sua vocação ofensiva, com um Pelé inspiradíssimo, tanto em genialidade individual como em trabalho coletivo. Daí por diante, o Brasil daria um banho de talento, gols e jogadas maravilhosas, onde a magia de Pelé, a superioridade de Jairzinho e os fortes chutes de Rivelino reinvidicariam o “futebol espetáculo” que se havia extraviado nos úmidos campos ingleses, quatro anos antes.
Assim, deixando rivais no caminho, o Brasil chegou à final, para enfrentar a Itália.
A fórmula foi tão simples quanto eficiente: marcar mais gols que o rival. Conscientes de que a força bruta italiana poderia significar um contratempo, os brasileiros fizeram o que melhor sabiam: tocar a bola e buscar o gol adversário, para o qual contaram com um Pelé no alge de suas habilidades e sendo protagonista de duas das jogadas mais memoráveis da história das Copas. A primeira foi o gol de abertura do marcador: Rivelino cruza, Pelé passa por cima de seus marcadores, flutua no ar e com uma certeira cabeçada coloca a bola na rede. A segunda corresponde ao definitivo 4 a 1, com a qualidade de uma jogada antológica: Pelé recebe a bola no centro da entrada da área rival e, sem sequer olhar, quase com displicência, suavemente rola a bola para a direita para que Carlos Alberto, que vinha acompanhando a jogada, finalizasse com um golaço.
No dia 21 de Junho de 1970, o Estádio Asteca lotado foi testemunha da coroação do Brasil como justo ganhador da taça Jules Rimet, pela terceira vez, e da confirmação de Edson Arantes do Nascimento como monarca indiscutível do futebol mundial.

A Copa do Mundo FIFA de 1970, a nona edição do torneio, foi disputada no México, de 31 de Maio até 21 de Junho. O México foi escolhido como sede pela FIFA em outubro de 1964. O torneio de 1970 foi a primeira Copa do Mundo disputada na América do Norte, e a primeira disputada fora da América do Sul e da Europa. Num encontro de equipes que já haviam vencido a Copa duas vezes, a final foi vencida pelo Brasil, que bateu a Itália por 4 a 1. Isto significa que o Brasil se tornou a primeira equipe a ter o título de campeão mundial por três vezes e foi permitido a posse definitiva da Taça Jules Rimet.
A seleção brasileira, que tinha Pelé (que estava em sua quarta e última Copa do Mundo), Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Gérson, Jairzinho, Rivellino e Tostão, é tida como uma das mais eficientes equipes na história das Copas. Neste torneio foi possível observar um retorno ao jogo solto e ofensivo em oposição às batalhas físicas das Copas de 1962 e 1966.
Um total de 75 times se inscreveram para as Eliminatórias. Notáveis equipes como Portugal, França, Hungria, Argentina e Espanha falharam em obter a classificação. Enquanto isso, o Marrocos tornou-se a primeira seleção africana a participar das finais da Copa desde a Segunda Guerra Mundial.
A Copa de 1970 foi, como de costume, precedida por disputas sobre sua organização. Esta Copa foi a primeira a ser televisionada em cores. Porém, para que as transmissões se encaixassem melhor nas programações da televisão européia, algumas partidas começaram ao meio-dia. Esta foi uma decisão impopular entre muitos jogadores e treinadores por causa do intenso calor no México neste período do dia.
O formato da competição permaneceu o mesmo da Copa anterior: 16 equipes classificadas, divididas em quatro grupos com quatro que se enfrentariam em turno único. Os dois primeiros colocados classificar-se-iam às quartas-de-final. Porém, pela primeira vez nas Copas, o critério de desempate em no caso de igualdade de pontos na fase de grupos era o saldo de gols (e não mais jogos-desempate e goal average) e se dois ou mais times tivessem o mesmo saldo de gols, o desempate se daria por sorteio. Se uma partida das quartas ou das semi-finais resultasse num empate após a prorrogação também haveria sorteio para definir a equipe classificada.
Pela primeira vez, substituições foram permitidas em Copas do Mundo. Cada time poderia fazer duas alterações durante o jogo. A União Soviética foi o primeiro time a se utilizar do expediente contra o México na partida de abertura. Viktor Serebryanikov foi o primeiro jogador a ser substituído, pois Anatoly Puzach entrou em seu lugar após os 45 minutos iniciais.
Esta Copa também foi a primeira a apresentar o uso dos cartões amarelo e vermmelho para advertências e expulsões respectivamente (note que as advertências e expulsões já existiam antes de 1970). Cinco cartões amarelos foram mostrados na partida de abertura entre México e URSS, enquanto nenhum cartão vermelho foi mostrado em todo o torneio.
A controvérsia cercou a Copa antes mesmo que uma bola fosse chutada. Bobby Moore, capitão da seleção inglesa foi acusado de roubo a uma joalheria, e subseqüentemente preso, na Colômbia, onde o time fazia um amistoso pré-Copa. Ele foi solto temporariamente para poder jogar a Copa, e depois as acusações foram discretamente retiradas.
No Grupo 1, os donos da casa não decepcionaram sua torcida e se classificaram junto com a União Soviética, ainda que houvessem algumas controvérsias nas vitórias mexicanas de 1 a 0 sobre a Bélgica e de 4 a 0 sobre El Salvador.
O Grupo 2 apresentou exatos seis gols em seis jogos com Itália, atual campeã européia, e Uruguai, atual campeão sul-americano, prevalecendo sobre Suécia e a surpreendente seleção de Israel após uma série de partidas pouco empolgantes. Desse grupo porém acabaria saindo dois dos quatro semi-finalistas.
Os primeiros grandes momentos desta memorável Copa do Mundo ocorreram no Grupo 3, no qual o bi-campeão Brasil e a defensora do título, Inglaterra se somaram as fortes equipes européias da Tchecoslováquia e Romênia. Na revanche da final da Copa de 1962, os brasileiros começaram perdendo para os tchecoslovacos, mas conseguiram reagir e acabaram por vencer a partida por 4 gols a 1. Pelé marcou um dos gols, mas o lance dele que ficaria marcado pra sempre nesta partida foi a tentativa efetuada do meio de campo que quase bateu o goleiro Ivo Viktor, a bola passou rente a trave. O choque de campeões entre a seleção canarinho e o English Team atendeu às expectativas. O lance mais célebre desta partida foi a forte cabeçada para o chão de Pelé que não atingiu o gol por conta de uma impressionante defesa de Gordon Banks, que conseguiu colocar sua mão por baixo da bola e mandá-la por cima do travessão. No fim, foi um gol de Jairzinho que sacramentou a vitória dos brasileiros pela contagem mínima. Na última rodada, a Romênia impôs dificuldades ao Brasil, mas o time de Zagallo acabou vencendo por 3 a 2. A Inglaterra também passou à segunda fase, batendo romenos e tchecoslovacos pela contagem mínima.
No Grupo 4, o Peru e seu estilo ofensivo conseguiu uma importante vitória contra a Bulgária por 3 a 2, após estar perdendo de 2 a 0 no intervalo. Marrocos começou bem sua primeira partida contra a Alemanha Ocidental, saindo na frente. Mas os alemães conseguiram a virada por 2 a 1. Os alemães também começaram atrás contra os búlgaros, mas um hat-trick de Gerd Muller ajudou na virada, que acabou em 5 a 2. Muller marcou mais um hat-trick na última rodada com placar de 3 a 1 dos alemães contra os peruanos. No fim, o Peru acabou avançando junto com a Alemanha Ocidental, pois havia vencido Marrocos por 3 a 0, com três gols em 11 minutos.
Nas quartas-de-final uma transformada Itália bateu o México por 4 a 1, de virada. Os donos da casa sairam na frente com um gol de José Gonzales, mas Gustavo Pena marcaria um gol contra empatando a partida antes do intervalo. A Itália dominou o segundo tempo. Dois gols de Luigi Riva e um de Gianni Rivera trouxeram o jogo ao seu placar final. Em Guadalajara, o caminho do Peru acabaria com a derrota de 4 a 2 para o Brasil após uma partida que demonstrou dois times ofensivos.
A partida entre Uruguai e União Soviética permaneceu sem gols até cinco minutos antes do fim da prorrogação, quando Victor Espárrago conseguiu arrancar um gol e classificando os sul-americanos. A última quarta-de-final foi uma revanche da final da Copa anterior entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, produziu uma das grandes partidas da história da Copa do Mundo. A Inglaterra sofreu um duro golpe antes do jogo, quando Gordon Banks sofreu severas dores de estômago. Seu reserva Peter Bonetti assumiu a posição, e no começo do segundo tempo os ingleses lideravam por 2 a 0 e o jogo aparentava já estar decidido. Porém, a Alemanha marcou com Franz Beckenbauer no minuto 68. Em pânico, o técnico inglês Alf Ramsey decidiu substituir Bobby Charlton. Sem Charlton, a Inglaterra não conseguia mais se firmar na partida e não conseguia conter os incessantes ataques alemães. A oito minutos do fim, Uwe Seeler cabeceou para marcar o gol de empate. A Alemanha Ocidental agora era a dona do jogo e, na prorrogação, com um erro de Bonetti, Gerd Muller marcou o gol da vitória, impossibilitando a defesa do título por parte dos ingleses.
As semi-finais apresentaram quatro times que já haviam vencido a Copa no passado: Brasil vs. Uruguai, numa revanche da partida final da Copa de 1950, e Itália vs. Alemanha Ocidental. No jogo entre os sul-americanos, o Brasil conseguiu bater o Uruguai por 3 a 1 de virada. Esta partida apresentou mais um brilhante lance de Pelé: com a posse de bola dentro da área, ele conseguiu ficar frente a frente com Ladislao Mazurkiewicz e, sem tocar a bola, ela passou à esquerda do goleiro, Pelé correu para o lado direito, pegando a bola com o gol vazio a sua frente. O zagueiro Ancheta não conseguiu tirar a bola, mas Pelé não conseguiu marcar por muito pouco. A semi-final composta pelos europeus é tida por muitos como o melhor jogo da história das Copas do Mundo. A Itália saiu na frente aos 8 minutos com um gol de Roberto Boninsegna após uma bela jogada de “um-dois” com Luigi Riva. A Alemanha Ocidental pressionou em busca do empate pelo resto do jogo, até o final quando Karl-Heinz Schnellinger, que jogava na equipe italiana do AC Milan, marcou o gol de empate nos acréscimos. Na prorrogação, Gerd Muller virou a partida para os alemães no minuto 94. E Tarcisio Burgnich empatou novamente. No minuto 104, Riva marcou o terceiro gol italiano sob a meta de Sepp Maier, mas Muller uma vez mais marcaria, seis minutos depois. A direção de TV ainda estava mostrando a repetição desse gol quando o meio-campista italiano Gianni Rivera, desmarcado perto da marca do pênalti, voleou um belo cruzamento de Boninsegna para o gol da vitória no minuto 111. Franz Beckenbauer jogou parte da partida com uma clavícula quebrada após tentar simular uma falta na prorrogação. Como Helmut Schön, técnico da Alemanha Ocidental, já havia feito as duas substituições permitidas, Beckenbauer ficou com o braço numa tipóia. A partida é tida como o “Jogo do Século”, também conhecido como a Partita del Secolo na Itália e Jahrhundertspiel na Alemanha. Um monumento no Estádio Azteca na Cidade do México homenageia o jogo. A Alemanha Ocidental conseguiu o terceiro lugar ao bater o Uruguai por 1 a 0.
Na final, o Brasil saiu na frente, com Pelé cabeceando um cruzamento de Rivellino no minuto 18. Roberto Boninsegna empatou para os italianos após falha da defesa brasileira. Gérson bateu um forte chute para o segundo gol, e ajudou na marcação do terceiro, com um lançamento de falta para Pelé que cabeceou para Jairzinho. Pelé finalizou sua grande performance saindo da marcação da defesa italiana e assistindo Carlos Alberto Torres no flanco direito para o gol derradeiro. O gol de Carlos Alberto, após uma série de passes da seleção brasileira da esquerda para o centro, é considerado um dos mais belos gols marcados na história do torneio. A vitória consagrou o Brasil como a primeira equipe a conquistar três títulos na história das Copas.
Com sua terceira vitória após 1958 e 1962, o Brasil pôde reter a posse da Taça Jules Rimet permanentemente (ironicamente, ela seria roubada em 1983 enquanto estava em exposição no Rio de Janeiro e nunca foi recuperada). O técnico brasileiro Mário Jorge Lobo Zagallo foi o primeiro futebolista a se tornar campeão mundial como jogador (1958 e 1962) e como técnico, e Pelé encerrou sua carreira nas Copas do Mundo como o primeiro (e até agora único) vencedor por três vezes.
Jairzinho marcou pelo menos um gol em cada dos seis jogos do Brasil (no primeiro jogo, contra a Tchecoslováquia, ele marcou dois), um feito que até agora não foi repetido. Porém, o artilheiro do torneio foi Gerd Müller, da Alemanha Ocidental, com 10 gols. Müller conseguiu marcar hat-tricks em dois jogos conscecutivos, contra a Bulgária e contra o Peru na fase de grupos.
A mascote oficial da Copa do Mundo foi Juanito, um garoto vestindo o uniforme da seleção mexicana e um sombrero.

Escalação dos jogadores

*Imagem retirada do site http://www.mantossagrados.blogspot.com
**Curiosidade: A fornecedora oficial da Seleção Brasileira na Copa do México, em 1970, era a também Brasileira Athleta. Por algum motivo a camisa usada pelo Brasil na partida final foi fornecida pela Inglesa Umbro. A troca do fornecedor é evidente na tipografia dos números nas camisas, a marca Brasileira usava uma tipografia quadrada, enquanto que a marca inglesa usava números arredondados.

1 Félix – Goleiro
2 Brito – Defesa
3 Piazza – Defesa
4 Carlos – Alberto Defesa
5 Clodoaldo – Meio-Campo
6 Marco Antônio – Defesa
7 Jairzinho – Ataque
8 Gérson – Meio-Campo
9 Tostão – Ataque
10 Pelé – Ataque
11 Rivellino – Meio-Campo
12 Ado – Goleiro
13 Roberto – Ataque
14 Baldocchi – Defesa
15 Fontana – Defesa
16 Everaldo – Defesa
17 Joel – Defesa
18 Paulo César Caju – Meio-Campo
19 Edu – Ataque
20 Dadá Maravilha – Ataque
21 Zé Maria – Defesa
22 Leão – Goleiro

Técnico: Zagallo

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